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sábado, 16 de abril de 2016

Quão profundo é seu amor...

Quão profundo é seu amor...
Vivia catando as coisas quando caia… comecei com apontamentos, depois borracha, caneta… era incrível como aquelas mãos tão delicadas ocupavam mais espaço do que sua massa permitia. Pensei que poderia ter telecinese ou coisa parecida – tenho que parar de ler quadrinho – tá bom ela nem era ruiva. Na verdade, aquilo virou mania. Passei a sentar perto dela na sala. Ficava mais fácil pegar as coisas, antes levantava… sentia que atrapalhava… dizia um “obrigada” sem jeito, fazendo um movimento leve da boca querendo esboçar um sorriso…
Passado o tempo, percebi que a distração só aumentava. Não sei de onde vem essa necessidade de ajudá-la… comecei a ficar perto no lanche – bem, pelo menos ela não deixava o seu lixo na mesa, mas sempre que iria jogar seu lixo escapava algo de sua mão, também é quase impossível que aquela mão tão pequena e delicada conseguisse segurar tantas coisas… e sempre um “obrigada” com sorriso desajeitado…
Pegávamos o ônibus no mesmo local… um belo dia, quase ela entra no ônibus errado… estava tão concentrada lendo um livro de José de Alencar - não sei se Cinco minutos ou O Guarani - que só seguiu as pessoas… Eu  disse: Ei, não é esse! Ela sorriu sem graça, apertou o livro no peito, deu dois passos pra trás, segurou meu braço e confessou: Obrigada, sou muito distraída… sem pensar disse: Eu sei! Ela sorriu como sempre e continuou esperando…
No outro dia colocou o fone no ouvido mas esqueceu de plugar no celular… estava ouvindo How Deep Is Your Love … só olhei e fiz sinal com os olhos… ela percebeu e prontamente plugou. Nem precisa dizer o que aconteceu depois, um sorriso, obrigada, mas desta vez sem emitir qualquer som ou pelo menos não ouvi… o que ouvi o dia todo foi aquela música…
Mais um dia comum em mina vida surgira e já estava tão acostumado a estar perto dela que não me sentia estranho… até certa vez que peguei um papel que caiu, aquele de anotações, juro que não queria ler, mas estava aberto e escrito How Deep Is Your Love com um coração no final…
Confesso que me incomodou um pouco… sabia que ela que havia escrito, também sabia que ela gostava da música, mas será que havia oferecido a alguém? Não sei por que me incomodo tanto com isso… resolvi não me aproximar mais, vai que ela queria falar com alguém e eu estava sempre atrapalhando, ao mesmo tempo, pela primeira vez, percebi que aquele “obrigada” com o sorriso faziam falta… fariam falta…
No outro dia, estava eu no meu canto, não querendo olhar pra ela … havia decidido não juntar mais nada, estava mesmo precisando era juntar outra coisa que estava bem partida… ela passou por mim sussurrou: Responde! Deixou cair um coração de papel vermelho … estava escrito: Descubra o quão profundo é… Ela me olhou … tirou o plugue do celular e até hoje cantarolamos
How Deep Is Your Love…
André Gustavo Maia Mourão

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Crônicas - Meras coincidências


Meras coincidências 
Passeando pelo museu, ela vê um senhor que aparenta mais de 100 anos sentado olhando para a parede com olhar desnorteado... 
- Bom dia! Tudo bem? 
- Sim! 
- O senhor precisa de algo? 
- ... 
- O que o senhor está vendo? 
- Abaporu! 
- Como? 
- Mistura de naturalismo, primitivismo, cubismo e um toque surrealista que mescla folclore, cultura, nacionalidade... 
- O senhor realmente está bem? Não está falando coisa com coisa... Queres que eu chame alguém? 
- Ninguém mais entende... ninguém atenderia... todos mortos 
- Pobre homem... e continua olhando para a parede... Não há alguém para eu chamar? 
- Estou olhando o quadro! Lembrando de uma época que passou. Ficou só a lembrança e a saudade 
- Que época foi essa? 
- Uma época que transformou as ideias, pensamentos, a própria criatividade! 
- E o senhor fez parte disso? 
- Muito mais... Nasci por conta disso ou pelo menos uma ideia do que sou. Sou a confluência se tudo que foi pensado, de todas as ideias, mesmo as contraditórias, profundamente o quadro simboliza a grande expressão desse momento. 
- O que ele representa? 
- Antropofagia! 
- Ah! O senhor é um antropófago... 
- KKKKKKKKK .... Não! Entre muitas coisas que fui e sou, esta não. E esse não é o sentido exato do quadro. Sou mais a síntese miscigenada da cultural-folclórica brasileira. 
- O senhor é dessa época? 
- Mais ou menos, mesma década. 1928. 
- Então deves ter... 
- 87 anos. 
- Qual o seu nome? 
- Já terminaste o Ensino Médio? 
- Não. Estou no 2º ano! 
- Você vai ouvir falar de mim, então! 
Sem mais nada a falar, levantou-se e foi embora. Ela ficou meio sem entender muita coisa e o que viu a deixou mais atônita. O senhor idoso de 87 anos transformou-se em um lindo jovem branco e loiro ... 
Texto de André Gustavo Maia Mourão